Fonte: Tarso Araujo. Superinteressante, edição especial "A Revolução da Maconha: o mundo começou a ver a planta de outro jeito. Entenda por quê.", 2014. Artigo "Tarja Verde: cada vez mais pesquisas confirmam a utilidade da maconha para o tratamento de uma grande variedade de doenças. Apesar de a lei brasileira prever o uso medicinal, a falta de regulamentação impede sua aplicação no Brasil."
Abril de 2007. Nessa data comecei uma luta para viver. Foi quanto soube que teria de fazer quimioterapia, radioterapia e cirurgia para tratar um câncer. Foi também quando comecei a usar maconha medicinal. Ao pedir aos médicos, não encontrei resistência. Eles não podem receitar, mas apoiaram. Só pediram que não abandonasse o tratamento convencional, e foi o que fiz.
Minha diferença para os outros pacientes logo tornou-se visível: eu comia melhor, dormia melhor, meu humor era melhor, e minhas dores eram bem menores. O problema foi quando fiz a cirurgia. Nesse período, fiquei 15 dias internada e não pude usar a erva. Sentia dores muito fortes, que os médicos tentavam controlar com morfina, não tinha apetite e o soro que me injetavam machucava ainda mais minhas veias, frágeis por causa da quimioterapia.
Após o tratamento contra o câncer, parei de usar maconha. Mas, dois anos depois, comecei a sentir uma dor insuportável. Tinha fibromialgia. Propuseram o tratamento com antidepressivos, vitaminas e analgésicos muito fortes. Comecei seguindo-o, mas os efeitos colaterais estavam me fazendo tão mal que resolvi tentar a maconha mais uma vez. De novo, consegui dormir melhor e os sintomas amenizaram muito. Com acompanhamento médico, aos poucos parei com os outros remédios e fiquei só com a planta.
Os problemas para conseguir maconha seguem. Tenho muito medo de ficar sem ela e ter de voltar ao tratamento convencional e aos seus efeitos colaterais. Sei que é proibido, mas minhas dores são maiores do que a lei.
-- Maria Antonia Goulart, 65, artista plástica. São Paulo (SP).